Sobre amor romântico e etnocentrismo


De A Ralé Brasileira¹.

Certamente, a conclusão de que determinadas condições objetivas de existência que moldam a vida de meninos e meninas desde as experiências da primeira infância tornam a vivência do amor romântico algo bastante improvável para certo tipo de pessoas é uma ideia que atinge em cheio a mais cara de nossas ilusões sobre a vida: a crença de que, apesar de toda a miséria e de toda a vulnerabilidade, as chances de se encontrar o amor não se fecham para o destino dos que vivem em um universo de privação. Acreditar que o destino de classe não fecha as portas do amor constitui sem dúvida o pilar da visão enganosa que a classe média tem da “ralé estrutural”, com o efeito auto-indulgente de saber que a privação de outras formas de realização na vida não é capaz de retirar a realização na intimidade de um lar, nas relações de um casal entre si e com seus filhos. Afinal, se o amor é mesmo a versão moderna e secularizada da busca pela salvação, oferecendo o que outrora prometia a religião com o reconhecimento pleno das singularidades de uma pessoa, o que há de mal na pobreza se ela não nos impede de amar? Se os pobres podem amar como todo mundo, a desigualdade em nada constitui empecilho para uma vida realizada.

Infelizmente, essa visão politicamente correta, destinada a esconder o sofrimento que a privação produz nas dimensões mais íntimas da vida, ecoa livremente na análise sociológica. Sérgio Costa é um que não escapa disso ao criticar a israelense Eva Illouz por achar que ela é etnocêntrica ao concluir que pessoas mais escolarizadas podem viver o amor romântico de modo mais autônomo e melhor. Para Illouz (lido em Sérgio Costa), como certamente seria para Max Weber, a reflexividade define se uma relação erótica é apenas o resultado chapado dos padrões vendidos pelo cinema e pelas telenovelas ou se ela é a vivência nutrida pela assimilação “consciente e autoirônica” desses padrões por parte dos amantes. Illouz acredita que a autonomia da esfera erótica depende diretamente dessa capacidade que os amantes têm de ressignificar, em alguma medida, os seus próprios rituais de erotismo; capacidade que para ela tem a ver com o repertório de “capital cultural” para exprimir e formular os próprios sentimentos. Nesse sentido, as pessoas mais desprovidas de “capital cultural” tendem a assimilar de modo muito menos autônomo e crítico os clichês da indústria cultural, ficando reféns de um erotismo pastiche que caminha ao bel sabor do que está na moda.

Essa análise da socióloga israelense parece confirmar exatamente o que tentamos mostrar ao longo deste texto: que a realização em outras esferas de valor, como o reconhecimento no trabalho e o afeto recebido pelos pais, é condição necessária para que o amor romântico surja de um erotismo relativamente liberto da preocupação “de vida ou morte” com o sexo, e assim capaz de patrocinar uma atitude reflexiva com o desejo. A qualificação de etnocentrismo feita por Sérgio Costa a Eva Illouz tenta negar a necessidade dessa diferenciação nas relações de reconhecimento social para a vivência do amor, buscando na “atribuição pelos atores de um sentido único, particular, mítico ao amor” o critério para definir a existência de uma esfera erótica autônoma e capaz de trazer realização aos amantes. Ora, não cabe definitivamente à sociologia dizer se as pessoas se amam ou não! Mas cabe a ela sem dúvida determinar as condições de possibilidade de qualquer experiência socialmente construída, como o amor, a amizade, a solidariedade de classe etc. O que faz Sérgio Costa ao eleger o “sentido atribuído pelos atores” como critério para definir sociologicamente o erotismo?

Nada além do que Bourdieu chama de “sociologia espontânea”, ou seja, aquela que toma como explicação do mundo social as ilusões que as pessoas formulam para legitimar sua posição no mundo, ajudando a esconder as misérias, dramas e angústias que essas pessoas precisam esquecer para continuarem vivas. Então, se uma menina como Dina, no auge de suas fantasias cujas razões analisamos aqui, diz estar vivendo um “verdadeiro amor”, o que deve fazer a sociologia? Tomar esse discurso como explicação, ou explicá-lo na relação com as condições de vida de Dina a fim de saber se essas condições permitem ou não o encontro provável com um “verdadeiro amor”? Ao falar em “múltiplas formas de amor”, numa expressão aparentemente tão generosa, Sérgio Costa demonstra na verdade todo o etnocentrismo que — ele sim e não Illouz! — reproduz na análise. Acreditar que a ausência de “grupos ou laços primários” capazes de prover o senso de solidariedade e identidade é uma possível fonte de formas “alternativas” de amor é a estratégia mais descarada de idealizar o oprimido, sugerindo uma disposição quase milagrosa de oferta generosa de amor quando as preocupações com a própria sobrevivência material e simbólica cercam a vida das pessoas. Sérgio Costa simplesmente esquece de considerar as condições de existência para a aprendizagem e a vivência do amor, presentes em sua própria posição de classe, projetando uma experiência própria de pessoas “despreocupadas” com sua sobrevivência material e simbólica na vida de pessoas efetivamente despossuídas da probabilidade de amar ao serem tomadas por esse tipo de preocupação. Quando ele pensa nesses “amores fáceis” ele ignora que todo tipo de amor, ao exigir uma “entrega de si”, pressupõe sempre uma “segurança de si” por parte dos amantes.

¹SILVA, Emanuelle; TORRES, Roberto; BERG, Tábata. A Miséria do Amor dos Pobres in SOUZA, Jessé (org.). A Ralé Brasileira, quem é e como vive. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. pp. 168-170.

o beijo rodin

O Beijo, 1889.

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