Estudantes do ensino médio federal e o PISA. Sucesso explicado pela seletividade social?

Este vai ser um post breve que pretende dar uma movimentada no blog, já que lá se vão sete meses do último post. A recente divulgação do sucesso dos estudantes da rede federal de ensino básico no PISA, comparável a de países desenvolvidos gerou vários debates e considerações sobre a possibilidade de um ensino público de qualidade. Os estudantes federais superam, inclusive, aqueles da rede privada.

Recentemente, o governo federal esqueceu de divulgar os excelentes resultados dos estudantes dos Institutos Federais no ENEM, o que levou alguns a levantar motivos ideológicos para tal omissão.

Eu mesmo, quando divulguei os resultados do PISA, recebi várias críticas de que a rede federal, ao contrário das demais redes públicas, seria extremamente seletiva, o que privilegiaria estudantes com condições socioeconômicas favoráveis, o que, em parte explicaria o resultado.

Bem, são necessários estudos mais detalhados, pois a rede federal seleciona estudantes de diversas formas (provas, sorteio ou privilegia filhos de militares, nos casos dos colégios militares), mas os microdados da PNAD de 2015, que eu analisei hoje, mostram resultados bem interessantes.

Abaixo, eu comparo a origem familiar dos estudantes do ensino médio pela renda per capita domiciliar. Separo os estudantes por quintil de renda familiar. O quintil 1 seriam os 20% mais pobres da população, o quintil 2 os 20% seguintes e assim por diante, até o quintil 5 que representa os 20% de famílias mais ricas.

quintil-em

Os dados nos mostram que a rede federal é muito mais equitativa do que a rede privada, em termos de acesso. As redes municipal e estadual tendem a concentrar os estudantes mais pobres. 30% dos estudantes da rede municipal de ensino médio vêm do estrato mais pobre da população, enquanto apenas 8% provêm do quintil mais rico. Na rede privada, quase metade vem do estrato mais rico e pouco mais de 3% apenas provêm das famílias mais pobres (provavelmente estudantes bolsistas, na maioria). A rede federal, por sua vez, parece representar bem a diversidade econômica das famílias brasileiras. Cerca de 19% dos estudantes vêm das famílias mais pobres, enquanto pouco mais de 21% vêm das mais ricas. Predominam, porém, estudantes do quarto quintil, aqueles que chamaríamos, grosso modo, de classe C, com 25% das matrículas.

A diferença fica mais evidente quando comparamos as medianas (a média é uma má medida de tendência central quando analisamos renda) da renda per capita familiar. Notamos que, apesar de os estudantes das escolas federais terem uma renda familiar um pouco maior do que os estudantes das demais redes públicas, eles são muito mais pobres, em média, do que os estudantes da rede privada.

renda-em

Quando comparamos a idade média dos estudantes das quatro redes notamos, por outro lado, que os estudantes da rede federal têm uma idade menor do que aqueles das outras redes públicas, o que denota menor repetência e atraso escolar. Por outro lado, a média de idade é levemente mais alta do que a da rede privada.

idade

São resultados preliminares, mas que parecem indicar que não é uma condição socioeconômica familiar privilegiada que explica o sucesso dos estudantes da rede federal em relação aos da rede privada. Pelo contrário, eles tendem a vir de de famílias, em média, economicamente bem mais pobres do que os alunos do ensino médio privado.

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