O Estado de Bem-Estar Social leva ao Desenvolvimento: por que os liberais austríacos estão errados?

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Existe um desses mantras da Internet, do qual ninguém sabe direito a origem, mas que é repetido como uma verdade autoevidente por quem descobre o liberalismo econômico rastaquera da escola austríaca: que os países ricos, que hoje mantêm estruturas de educação, saúde e seguridade social para a sua população, só passaram a fazê-lo depois que enriqueceram. Logo, um país como o Brasil primeiro teria, nessa visão, que enriquecer para, então, implantar esses serviços. Sim, emularam o Delfim Neto com a história do bolo.

Basta observar alguns dados históricos sobre a implantação dos sistemas de Welfare em alguns países que, hoje, são desenvolvidos para ter uma noção do quanto essa perspectiva não se sustenta.

1) Em 1883, a Alemanha bismarquiana criou o primeiro sistema de saúde pública e seguridade contra velhice e acidentes de trabalho para seus trabalhadores. Nesse momento, sua renda per capita, em valores atuais, era de apenas $ 3.290 anuais. É uma renda parecida à renda que um cambojano tem hoje em dia.

2) Em 1913, a Suécia adotou um sistema semelhante, a origem do lendário welfare nórdico, que “protege o cidadão da adversidade do berço ao túmulo”. Sua renda per capita, naquele ano, foi de meros $ 4.840. Hoje, é uma renda anual típica de um nicaraguense.

3) O famoso NHS, o serviço nacional de saúde pública do Reino Unido, foi criado em 1948. Teve tanto sucesso que se tornou um modelo para todo o mundo. Mesmo o pioneiro Reino Unido, o primeiro país a se industrializar, tinha uma renda per capita de $ 10.600 anuais. Ainda em valores corrigidos para os dias de hoje, seria uma renda equivalente à atual renda da Indonésia.

Sabem qual foi a renda per capita do Brasil em 2015 (último dado disponível)? Mais ou menos 15.400 dólares anuais. Ou seja, já somos bem mais ricos do que a Alemanha do final do século XIX, do que a Suécia do começo do século XX ou do que o Reino Unido da metade do século passado.

Por que essa perspectiva está errada? Amartya Sen, um economista liberal (da escola liberal de verdade, não dessa besteira de escola austríaca), mostra que serviços sociais, como a saúde e a educação, são serviços do tipo “trabalho intensivos“, ou seja, o maior gasto sempre será em capital humano, ou seja, salários dos professores, dos enfermeiros, etc. Esses salários seguem, ou deveriam seguir, os custos do trabalho da economia geral. Se a economia é pobre, esses salários também tendem a ser baixos, o que permite que mesmo países pobres consigam mantê-los.

Um caso exemplar disso é do estado indiano de Kerala, que está longe de ser um dos mais ricos daquele país, que ainda é, em si, bastante pobre. Desde os anos 1970, o governo local passou a investir pesado em saúde e educação. O resultado é que, hoje, apesar de o estado indiano ter uma renda per capita mais ou menos 2 vezes menor do que a de países bem mais ricos como o Brasil (se bem que superior à média do seu país), tem uma expectativa de vida de 77 anos (3 anos a mais do que a do Brasil e 8 anos a mais do que a média indiana) e uma taxa de alfabetização de 94% (3 pontos percentuais maior do que a do Brasil e 20 pontos percentuais acima da média da Índia).

 

 

Originalmente públicado em 29/05/2017 em:

http://www.revistalinguadetrapo.com.br/o-estado-de-bem-estar-leva-ao-desenvolvimento-por-que-os-liberais-austriacos-estao-errados/

 

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