A “altright” deles e a nossa

Publicado originalmente em Seguinte: em 07 de Setembro de 2018

Gostam de comparar o Bolsonaro e o Trump, mas afora alguma canalhice em comum – que não é exatamente rara na política – o primeiro é muito pior. Em primeiro lugar,Trump é inteligente. Apesar dos meios relativamente escusos, construiu um império empresarial bilionário. Bolsonaro, em um sistema meritocrático como o exército, nunca conseguiu passar de capitão – apenas o segundo posto da hierarquia do oficialato. Em vários documentos, seus superiores – incluindo o ex-presidente/general Geisel – o criticavam como despreparado, ambicioso e sádico. Para aumentar o então relativamente magro soldo, se envolveu em garimpo ilegal e motins – o que levou à sua expulsão das forças armadas como terrorista, após ser flagrado planejando explosões à bomba. Desde então, se envolveu na política basicamente como um sindicalista representante da enorme guarnição do baixo oficialato estacionada no Rio de Janeiro. Um homem sem virtú, até que a fortuna lhe sorriu com a história do famigerado “kit gay”.

Trump, apesar da birra infantil típica dos bilionários midiáticos, tem algum controle emocional. Nunca cogitou, por exemplo, fuzilar os democratas – como Bolsonaro defendeu fazer com os petistas. Por outro lado, Trump é abertamente racista. Bolsonaro também. A diferença é que lá isso é comum. No Brasil, rompe com uma tradição igualitária. Lá, negros eram impedidos de votar ou de frequentar os mesmos espaços que os brancos até 40 anos atrás. Aqui, pessoas de cor já votavam desde a época colonial – desde que tivessem alguma propriedade, assim como os brancos. Grande parte dos nossos heróis nacionais é negra: Machado, na literatura, Aleijadinho, na escultura, etc. Tivemos presidentes negros já na República Velha. FHC nunca teve vergonha de sua origem mestiça. É, portanto, uma degeneração Bolsonaro medir negros em “arrobas”. Talvez não seja por acaso ele vir de uma família de imigrantes italianos recentes – e não seja fruto da secular tolerância racial da civilização luso-brasileira.

O mais importante, por fim, é que as instituições democráticas americanas têm um quarto de milênio. Sua Constituição, Parlamento e forças armadas são legalistas e servem como contrapeso eficaz a qualquer maluco que ocupe o executivo. Aqui, nossa sétima constituição tem 30 anos. E já é a terceira mais longeva. Metade do parlamento é composto pelo imprestável “centrão”, disposto a apoiar qualquer um em troca de cargos. E com um presidente e vice militares – algo que não aconteceu nem na última ditadura, quando o vice era civil – alguém confiaria na disposição das forças armadas em defender a constituição e democracia brasileiras? Lembre-se que elas estiveram envolvidas em vários golpes ao longo da história brasileira, desde a proclamação da República (que, muitos esquecem, foi um golpe militar) até o último, em 1964.

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