Ausência paterna e violência: onde de fato mora o problema

Publicado originalmente em Seguinte: em 19 de Setembro de 2018

A tese de que há uma relação entre ausência paterna e violência, ventilada de forma preconceituosa e misógina pelo General Mourão, foi criada pelo sociólogo americano Pat Moynihan nos anos 60 e já foi citada por vários políticos, de direita e de esquerda, inclusive Obama.

A Sociologia, no entanto, tende a superestimar os efeitos da socialização familiar. Desde a revolução causada na psicologia social com a publicação de The Nurture Assumption, de Judith Harris, e dos estudos em larga escala com gêmeos e crianças adotadas, sabe-se, que mantendo os genes constantes, o efeito do ambiente familiar sobre a personalidade das crianças é muito pequeno. Como assim? Estaria defendendo uma espécie de determinismo biológico? Não, muito pelo contrário. Se o efeito da família é muito pequeno, o efeito do ambiente social mais amplo é enorme. Aí que entra a relação entre famílias monoparentais e violência. E não é uma questão apenas relacionada à pobreza ou desigualdade, como muitos supõem.

Por mais que se discutam as “causas” da violência, existe um fator que é consenso em toda a criminologia e áreas correlatas: a proporção de homens jovens na população – que são responsáveis pela maioria de todos os crimes violentos em qualquer sociedade. Se as outras coisas forem iguais, sociedades com uma proporção maior de homens jovens serão mais violentas. Este é um dos exemplos mais próximos do que seria uma “lei” nas ciências humanas.

Um dos principais fatores que podem atenuar as disputas por dominância entre homens jovens é justamente o casamento e a família (neste ponto, conservadores estão corretíssimos). Homens casados e pais de família têm uma chance muito menor de se envolverem em situações violentas do que homens solteiros (os mecanismos por trás disso podem ser discutidos em outro momento).

Bem, assim chegamos à relação entre abandono paterno e violência. Se os homens de comunidades carentes não estão em casa cuidando dos filhos (e trabalhando para sustentá-los), eles estão andando em bandos e disputando dominância e recursos escassos e, eventualmente, se matando entre si. Isso faz com que essas áreas onde há abandono paterno generalizado também sejam as mais violentas. E aí entra a socialização secundária (ou fora da família), que, hoje, se sabe que é ainda mais importante do que a familiar. Quando os filhos abandonados pelos pais chegarem à adolescência, encontrarão um ambiente social permeado pela violência (causada pelos próprios pais que os abandonaram, se eles tiverem a sorte de ainda estarem vivos). E essa é a causa da correlação entre violência e pessoas oriundas de famílias monoparentais.

Ou seja, o mecanismo não é a figura de autoridade. Mães e avós são fontes de autoridade moral tão boas quanto os pais, senão melhores. Isso também explica porque os filhos de mulheres feministas de classe média, que são adeptas da “produção independente”, não têm maiores chances de se tornarem bandidos. Seus pais biológicos não estão disputando dominância e causando anomia social no Leblon ou no BomFim. Aliás, o próprio Pat Moynihan foi criado sem o pai.

 

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