Civilização Luso-Brasileira e os Povos Originários

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Ao contrário do que afirma nosso complexo de inferioridade, a civilização luso-brasileira foi uma das mais fantásticas que a humanidade já produziu. Fomos muito mais iluministas e liberais do que os próprios europeus do norte.

Duvida? Comparemos como anglo-americanos e luso-brasileiros trataram seus povos originários ao longo dos últimos séculos:

No século XVIII, o founding father e líder da revolução americana, George Washington, dizia sobre os indígenas: “Os objetivos imediatos são a sua destruição total. É essencial arruinar suas plantações.”

Quase na mesma época, o ministro português Marquês do Pombal proibia a escravização indígena, assegurava seus direitos como súditos do monarca português e garantia uma escola em cada aldeia indígena. Isso não foi só letra morta. A minha cidade natal, Gravataí (RS), surgiu como uma aldeia de índios fugidos das guerras que tomavam conta das Missões espanholas. Lá, foram fundadas escolas, olaria, moinhos, estâncias, etc. para esses guaranis, tudo às expensas do tesouro português, sob ordens diretas de Pombal.

No século XIX, outro presidente americano, Andrew Jackson, dizia: “eles não possuem inteligência, devem logo desaparecer diante de uma raça superior”. Aqui, uma das primeiros obras literárias do Brasil independente, a ode indigenista I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias, foi logo tornada um símbolo nacional e um dos mais belos épicos da língua portuguesa. Logo depois, o senador do Império, José de Alencar, também um dos maiores escritores brasileiros, escrevia Iracema, outra obra indigenista, uma bela alegoria do surgimento da pátria. Sem falar de O Guarani, também de Alencar, que, depois, inspiraria a ópera homônima de Carlos Gomes – sucesso em todo o mundo.

Já no século XX, mesmo um grande “humanitário” e progressista como Theodore Roosevelt (não confundir com Franklin, seu sobrinho, que também foi presidente dos EUA) afirmava “não chego a dizer que índio bom é índio morto, mas isso é verdade em 9 a cada 10 casos e gostaria de estudar com cuidado o caso do décimo”. 


Exatamente na mesma época em que “Ted” era presidente dos EUA, aqui, o marechal do exército Cândido Rondon (ele próprio descendente de índios), que também dá nome ao estado de Rondônia, mapeava as regiões inexploradas do território brasileiro, enquanto as interligava aos centros do país por meio do telégrafo. Nisso, várias tribos então isoladas eram contatadas e pacificadas, sempre de forma não-violenta. Seu lema era “morrer se preciso for, matar nunca!”: “Em setembro de 1913, Rondon foi atingido por uma flecha envenenada dos índios Nhambiquaras. Sendo salvo pela bandoleira de couro de sua espingarda, ordenou aos seus comandados, porém, que não reagissem e batessem em retirada, demonstrando seu princípio de penetrar no sertão somente com a paz”. Ele foi, também, o organizador do Serviço de Proteção ao Índio, hoje, Funai.

Em Busca da Boa Identidade

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A causa de grande parte dos problemas políticos atuais é o liberalismo individualista pressupor que as pessoas são autossuficientes: devem buscar seus próprios valores e bastarem a si mesmas, sem necessidade de vínculos mais ou menos duradouros: é o mundo “líquido” do qual falava Bauman. Esse liberalismo individualista é compartilhado pela direita e pela esquerda, cabe lembrar.

Daí vem a ojeriza a cantar o hino ou mesmo a reverenciar a bandeira. São atitudes até justificadas, já que na maior parte do tempo o simbolismo nacional foi utilizado apenas para patriotadas e maniqueísmos chauvinistas.

Ora, acontece que as pessoas necessitam de identidades e significados. Provavelmente, isso deve ter a ver com alguma característica profunda da natureza humana ou a uma ontologia comum a todos nós. Não sei.

O fato é que quanto as pessoas deixam de buscar essa identidade em vínculos saudáveis, como a família, a comunidade local, as igrejas ou mesmo a comunidade política, a anomia prevalece e sobram as formas degeneradas de comunidade. Por isso, é tão comum vermos as pessoas usando coletivos identitaristas de militância como terapia, bem como a avidez com que elas se juntam a esses grupos quando entram numa universidade pública. Se a esquerda tem os coletivos como forma de suprir a necessidade de comunidade, a direita tem o suprematismo racial, os grupos de incels ou até a seita de um certo astrólogo.

Por isso, não há nada de necessariamente opressor ou chauvinista em cantar o hino nacional (ignorando o slogan ilegal que o comunicado do MEC trouxe consigo, que é o verdadeiro problema, ao contrário do que os apologistas do governo tem divulgado). O hino é um ritual, e a vida é feita de rituais. É um símbolo que, assim como os demais símbolos nacionais, nos lembra que fazemos parte de uma comunidade política de 200 milhões de pessoas, para as quais temos deveres e obrigações especiais. Lembra que compartilhamos de uma história e de instituições comuns. Como todo ritual, cantar o hino fortalece vínculos. É a virtude cívica, uma forma de identidade saudável. Se as identidades virtuosas não forem cultivadas, restam apenas as outras. Ao invés de um patriotismo republicano, resta o nacionalismo retórico e patrioteiro, tão em voga no Brasil dos últimos anos.