Civilização Luso-Brasileira e os Povos Originários

23130474_1698803940151483_3775040825376151270_n

Ao contrário do que afirma nosso complexo de inferioridade, a civilização luso-brasileira foi uma das mais fantásticas que a humanidade já produziu. Fomos muito mais iluministas e liberais do que os próprios europeus do norte.

Duvida? Comparemos como anglo-americanos e luso-brasileiros trataram seus povos originários ao longo dos últimos séculos:

No século XVIII, o founding father e líder da revolução americana, George Washington, dizia sobre os indígenas: “Os objetivos imediatos são a sua destruição total. É essencial arruinar suas plantações.”

Quase na mesma época, o ministro português Marquês do Pombal proibia a escravização indígena, assegurava seus direitos como súditos do monarca português e garantia uma escola em cada aldeia indígena. Isso não foi só letra morta. A minha cidade natal, Gravataí (RS), surgiu como uma aldeia de índios fugidos das guerras que tomavam conta das Missões espanholas. Lá, foram fundadas escolas, olaria, moinhos, estâncias, etc. para esses guaranis, tudo às expensas do tesouro português, sob ordens diretas de Pombal.

No século XIX, outro presidente americano, Andrew Jackson, dizia: “eles não possuem inteligência, devem logo desaparecer diante de uma raça superior”. Aqui, uma das primeiros obras literárias do Brasil independente, a ode indigenista I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias, foi logo tornada um símbolo nacional e um dos mais belos épicos da língua portuguesa. Logo depois, o senador do Império, José de Alencar, também um dos maiores escritores brasileiros, escrevia Iracema, outra obra indigenista, uma bela alegoria do surgimento da pátria. Sem falar de O Guarani, também de Alencar, que, depois, inspiraria a ópera homônima de Carlos Gomes – sucesso em todo o mundo.

Já no século XX, mesmo um grande “humanitário” e progressista como Theodore Roosevelt (não confundir com Franklin, seu sobrinho, que também foi presidente dos EUA) afirmava “não chego a dizer que índio bom é índio morto, mas isso é verdade em 9 a cada 10 casos e gostaria de estudar com cuidado o caso do décimo”. 


Exatamente na mesma época em que “Ted” era presidente dos EUA, aqui, o marechal do exército Cândido Rondon (ele próprio descendente de índios), que também dá nome ao estado de Rondônia, mapeava as regiões inexploradas do território brasileiro, enquanto as interligava aos centros do país por meio do telégrafo. Nisso, várias tribos então isoladas eram contatadas e pacificadas, sempre de forma não-violenta. Seu lema era “morrer se preciso for, matar nunca!”: “Em setembro de 1913, Rondon foi atingido por uma flecha envenenada dos índios Nhambiquaras. Sendo salvo pela bandoleira de couro de sua espingarda, ordenou aos seus comandados, porém, que não reagissem e batessem em retirada, demonstrando seu princípio de penetrar no sertão somente com a paz”. Ele foi, também, o organizador do Serviço de Proteção ao Índio, hoje, Funai.

Em Busca da Boa Identidade

Resultado de imagem para proclamação da república alegoria

A causa de grande parte dos problemas políticos atuais é o liberalismo individualista pressupor que as pessoas são autossuficientes: devem buscar seus próprios valores e bastarem a si mesmas, sem necessidade de vínculos mais ou menos duradouros: é o mundo “líquido” do qual falava Bauman. Esse liberalismo individualista é compartilhado pela direita e pela esquerda, cabe lembrar.

Daí vem a ojeriza a cantar o hino ou mesmo a reverenciar a bandeira. São atitudes até justificadas, já que na maior parte do tempo o simbolismo nacional foi utilizado apenas para patriotadas e maniqueísmos chauvinistas.

Ora, acontece que as pessoas necessitam de identidades e significados. Provavelmente, isso deve ter a ver com alguma característica profunda da natureza humana ou a uma ontologia comum a todos nós. Não sei.

O fato é que quanto as pessoas deixam de buscar essa identidade em vínculos saudáveis, como a família, a comunidade local, as igrejas ou mesmo a comunidade política, a anomia prevalece e sobram as formas degeneradas de comunidade. Por isso, é tão comum vermos as pessoas usando coletivos identitaristas de militância como terapia, bem como a avidez com que elas se juntam a esses grupos quando entram numa universidade pública. Se a esquerda tem os coletivos como forma de suprir a necessidade de comunidade, a direita tem o suprematismo racial, os grupos de incels ou até a seita de um certo astrólogo.

Por isso, não há nada de necessariamente opressor ou chauvinista em cantar o hino nacional (ignorando o slogan ilegal que o comunicado do MEC trouxe consigo, que é o verdadeiro problema, ao contrário do que os apologistas do governo tem divulgado). O hino é um ritual, e a vida é feita de rituais. É um símbolo que, assim como os demais símbolos nacionais, nos lembra que fazemos parte de uma comunidade política de 200 milhões de pessoas, para as quais temos deveres e obrigações especiais. Lembra que compartilhamos de uma história e de instituições comuns. Como todo ritual, cantar o hino fortalece vínculos. É a virtude cívica, uma forma de identidade saudável. Se as identidades virtuosas não forem cultivadas, restam apenas as outras. Ao invés de um patriotismo republicano, resta o nacionalismo retórico e patrioteiro, tão em voga no Brasil dos últimos anos.

O Brasil não é tão corrupto quanto você imagina

Originalmente publicado no Seguinte: em 30 de Novembro de 2017.

Como eu já escrevi antes, o Brasil é um país paradoxal. Ao mesmo tempo em que mantém estruturas sociais incrivelmente arcaicas, descriminalizou a homossexualidade no começo do século XIX, reconheceu os direitos políticos das mulheres antes da França e foi o único país que lutou na Segunda Guerra cujas tropas não eram segregadas racialmente. Agora, somos um dos poucos países cujo judiciário consegue prender bilionários. Este país tem algo que é incrível e ninguém ainda conseguiu entender direito.

Financial Times contrastou o caso brasileiro com o mexicano em uma matéria do ano passado. Aqui, a economia ainda está em frangalhos – em parte devido à Lava Jato, o que talvez seja um remédio amargo e necessário – mas as instituições funcionam incrivelmente bem. O México, o outro gigante da América Latina, ao contrário, é dominado por cartéis, o judiciário é uma piada, mas vem tendo um bom desempenho econômico.

 

Depois que Temer foi pego fazendo o que não se deve, MBL, parte da imprensa (especialmente a Folha e o Estadão) e quase todas as associações empresariais rogaram para que o combate à corrupção pare para que não prejudique a incipiente luz no fim do túnel econômico. Bem, quem suportou três anos de crise, aguenta mais alguns meses. Se o resultado disso for uma economia limpa e instituições verdadeiramente imparciais, que se vá até o fim. O resultado poderia compensar, apesar de o “grande acordo nacional” proposto por Romero Jucá, finalmente parece estar fazendo com que as coisas voltem a ser como antes.

De qualquer forma, mesmo com os escândalos que se sucedem com alguma impunidade, especialmente entre os protegidos pelo Foro Privilegiado, o Brasil está longe de ser o país mais corrupto do mundo. A ONG Transparência Internacional, todo ano, publica um índice que procura medir a corrupção entre os países. Desde que começou a ser calculado, nos anos 90, o Brasil tem se saído relativamente bem. Obviamente, estamos muito longe de paraísos como a Dinamarca, Nova Zelândia ou Finlândia, mas também estamos igualmente longe de ser o país mais corrupto do mundo. Em 2014, entre 174 países, o Brasil era o 69º mais honesto. Ou seja, existem 105 países mais corruptos do que o Brasil. Estamos exatamente empatados com alguns países europeus, como Grécia e Itália. Quando olhamos para o nosso continente, verificamos que o Brasil é um dos países menos corruptos: na América do Sul, apenas Uruguai e Chile são mais honestos. A orgulhosa e europeizada Argentina amarga a 107º posição.

Bem ou mal, nosso país tem uma longa história de instituições mais ou menos democráticas, o que pode ajudar a explicar porque nossa corrupção não é tão horrível quando poderia ser. Acabei de ler um livro do cientista político Bolívar Lamounier, no qual ele pontua que, apesar dos pesares, a democracia representativa (ou seja a existência de um parlamento eleito de forma relativamente limpa) existe entre nós desde a primeira Constituição do Império, de 1824. Mesmo com as sucessivas rupturas institucionais (Proclamação da República, Revolução de 30, Estado Novo e Golpe Militar de 1964, nossa última dessas rupturas, que já tem lá seus 53 anos), a única vez em que o projeto de extinção da democracia representativa entre nós foi nos 7 anos do Estado Novo, a ditadura semifascista encabeçada por Getúlio Vargas entre 1937 e 1945. Mesmo os militares da última ditadura, apesar de fecharem o Parlamento algumas vezes e mudarem constantemente as regras do jogo para garantir a maioria da Arena, o partido governista, nunca pensaram em extinguir alguma forma de oposição consentida (então, materializada no MDB, ironicamente o grande protagonista dos escândalos atuais).

Então, a existência, ainda que turbulenta de certas instituições minimamente independentes desde a nossa independência pode garantir que, se levado a sério, o combate à corrupção pode prosperar no Brasil. Muitos dizem que nossa tendência cultural à corrupção e ao “jeitinho” veio de Portugal, mas olhem para nossos irmãos de além-mar hoje em dia: eles estão entre os 30 países mais honestos do mundo, muito próximos aos seus vizinhos europeus. Ou seja, não há nada em nossa cultura que nos predisponha a aceitarmos essa chaga social. “Que o Brasil se torne um imenso Portugal”, como dizia a canção do Chico.

 

Mapa da Transparência Internacional: Quanto mais vermelho, mais corrupto é o país.

 

A PIOR DIREITA E ESQUERDA AMEAÇAM O MELHOR DO BRASIL

Às vezes, é importante ser conservador – na boa acepção – pois boas coisas são fáceis de destruir, mas muito difíceis de construir. Recentemente, me dei conta de que características que a cultura brasileira desenvolveu (características das quais devemos nos orgulhar, além de lutar para preservá-las) estão sendo ameaçadas pela importação de duas ideologias exógenas, de origem americana, sendo que uma delas nos ataca pela direita e a outra pela esquerda.

Essa característica é a nossa tolerância, uma tolerância de raízes profundas, embora não sem contradições – dado, por exemplo, que fomos o último país ocidental a abolir a escravidão. Ainda assim, poucos países tiveram a sorte de se desenvolver sobre instituições e cultura tão propícias a um sadio liberalismo político e social quanto nós.

(…)

Leia o restante de meu artigo no Ano Zero.